O novo Paradigma Económico de Angola e a Aposta na Educação

As (penosas) reformas estruturais estão a criar um novo modelo económico em Angola, despoletando um conjunto de oportunidades ao nível das exportações de serviços de valor acrescentado. Mais do que nunca, deveria existir um esforço nacional para melhorar as competências técnicas e tecnológicas daqueles que entram no mercado de trabalho.

Durante muitos anos, habituamo-nos a olhar para Angola, nomeadamente para Luanda, como um mercado com elevados custos de vida e consequente elevado custo do trabalho. Nos corredores das empresas internacionais era habitual ter como boa prática que todas funções de “back office”, ou seja, aquelas que não têm contacto directo com os clientes, fossem efectuadas nos países de origem ou terceiros com menores custos.

No entanto, vale a pena voltarmos a reequacionar estas práticas, pois a realidade de hoje foi alterada, por um lado pelas penosas regras de empobrecimento impostas pelos agentes financeiros externos, mas também pelo desenvolvimento positivo de reformas estruturais internas do Executivo. 

 

Uma nova realidade

Esta nova realidade, acelerada pelo impacto que a actual pandemia forçou nos modelos de trabalho das organizações, abre um conjunto enorme de oportunidades para o desenvolvimento do modelo económico de Angola.

Está hoje bem definido e finalmente percebido por todos que o futuro de Angola passa pela sua maior competitividade na produção e exportação de bens e serviços, diversificando a sua economia não-petrolífera.

Ora, no desenvolvimento da economia no curto e médio prazo, a exportação de serviços de valor acrescentado apresenta enormes vantagens em comparação com a exportação de bens transacionáveis, pois ela não requer avultados investimentos externos em infraestruturas, não requer a transparente disponibilidade de divisas e bom funcionamento do sector financeiro para aquisição de equipamentos e matérias-primas, não requer complexas cadeias de logística para escoamento da produção, nem sequer necessita de passar por longos processos de acreditação e garantia de qualidade dos produtos a serem exportados.

Deveria o Executivo criar uma “bazuca educativa” para a melhoria substancial das competências chave dos jovens

Para além de uma razoável infra-estrutura de comunicações e redes, de que Angola hoje já dispõe, as “matérias-primas” destas actividades, são a inclusão e literacia técnica e tecnológica daqueles que estão e entram no mercado de trabalho.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, os agentes económicos estão sempre muito atentos às oportunidades de mercado para poderem tornar as suas organizações mais competitivas. Hoje, nas grandes empresas, já é economicamente viável, deslocar muitas actividades dos chamados “business processes” para Angola. Olhando para o exemplo de outros Países, (India, Portugal), o próximo passo será a criação de um conjunto de prestadores de serviços especializados na exportação destes serviços de valor acrescentado.

Mas, para que os empresários tenham confiança e arrisquem, será preciso ter “matéria-prima” qualificada, e esta é uma missão do Estado.

Mais do que nunca, e entre tantas “task-forces” que são criadas para resolver urgências quotidianas, deveria o Executivo criar uma “bazuca educativa” para a melhoria substancial das competências chave dos jovens e recém-formados que entram no mercado de trabalho.

Este Programa poderia ser desenvolvido através da aposta em centros de formação profissional ligados às várias universidades e academias de formação do sector privado, incidindo em competências chave, quer ao nível tecnológico quer ao nível das principais tarefas administrativas de back-office das empresas.

No limite, o modelo de desenvolvimento e crescimento económico de Angola será muito mais rápido e sustentável através da aposta na qualidade do mercado de trabalho. Seria razoável repensar se devemos continuar a dar tanta prioridade à construção de infraestruturas através das famosas linhas de crédito, que no final do dia alimentam apenas empresas de países terceiros e que nenhum know-how deixam em Angola para futuro, só dívidas para pagar.

 


Fonte: EXPANSÃO